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domingo, 30 de maio de 2010

Flor de Lótus


Os seres vivos, em geral, lutam para estar bem. Todos gostam de estar numa zona de conforto, porém os únicos que vêm com um dispositivo a mais para encontrar essa paz, essa serenidade, ou seja, esse conforto neles mesmos é o ser humano, já as outras espécies precisam que a natureza propicie esse bem estar.

O termo Yoga, oriundo do sânscrito yuj, significa unir, juntar, jungir... juntar exatamente o que? De uma forma mais ampla, é a junção do ser individual ao ser cósmico. Podemos também apreciar esse jungir de outra forma: quando conseguimos a coerência dos nossos pensamentos, emoções, palavras e ações atingimos uma integração do nosso ser. Há uma palavra em sânscrito que resume essa coerência, arjavan (retidão). O Yoga é um dos grandes caminhos que nos leva ao reto agir, proclamado em arjavan. Esse reto agir, essa conformidade dos nossos corpos físico, energético, mental e espiritual, nos leva a um estado de calmaria nas nossas mentes, não há mais distorção do nosso ser, há sim a revelação de sua magnitude, sua verdade. Para caminhar sob a luz de arjavan, é necessário estar consciente dos seus atos (mais uma definição de Yoga, ou seja, consciência na ação), para que eles sejam um reflexo da expressão da sua mente (pensamento, emoções).

Com os sentidos voltados para esse alinhamento, vamos burilando nosso buddhi (intelecto), percebendo que acima do nosso limitado eu (ego), existe um observador que não se envolve no jogo das dualidades, no seu distanciamento, apenas tudo vê. Quando trazemos esse observador para o nosso dia-a-dia, criamos um estado no nosso ser de apreciação do todo, do conjunto das manifestações do Absoluto. Desenvolvendo, assim, um profundo contentamento (santocha) e reconhecimento do estado de Yoga (união).

A alegoria da flor de lótus é um exemplo dessa busca, com suas raízes imersas no lodo, representando nossa identificação no jogo das dualidades, e suas pétalas, que se abrem além da superfície, dirigindo-se para luz, simbolizam nossa mente na apreciação do Uno.

Fonte:http://www.flordelotus.pro.br/cat/show_cat.php?id=8

sábado, 8 de maio de 2010

Um Avanço para a Inclusão Terapêutica

O professor João Tadeu de Andrade destaca a importância da regulamentação do SUS de métodos terapêuticos como acupuntura, homeopatia, fitoterapia e termalismo. E comenta que ainda é preciso ampliar essa política de inclusão terapêutica

Jornal O POVO

Cf. a Portaria 971 de 3 de maio de 2006, do Ministério da Saúde




Doutor em Antropologia,

Professor da Universidade Estadual do Ceará – UECE,

vinculado ao Mestrado em Políticas Públicas e Sociedade

e ao Mestrado em Saúde Pública.

jtadeu@uece.br Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

Ciência & Saúde, Jornal O Povo, em 29/04/2007

Práticas integrativas e complementares em saúde constituem denominação recente do Ministério da Saúde para a medicina complementar, em suas ricas aplicações no Brasil. Este campo de saberes e cuidados em saúde desenha um quadro extremamente complexo, múltiplo e sincrético articulando um número crescente de práticas diagnóstico/terapêuticas, tais como terapia nutricional, massoterapia e radiestesia, dentre diversas opções.

No Brasil, se tem um grande acervo de práticas de saúde tradicionais e estrangeiras, dentro do que podemos chamar campo “alternativo” de saúde. Ao longo dos anos um conjunto de medidas, tanto do governo como de associações profissionais, tem procurado responder às transformações desta área, por meio da criação de normas, agências e procedimentos investigativos. O Conselho Federal de Medicina, a Associação Brasileira de Medicina Complementar, o Ministério da Saúde estão entre aquelas instituições que acompanham e avaliam o uso das práticas integrativas de saúde, incluindo também instituições acadêmicas.

Em 2006, o Ministério da Saúde deu um passo decisivo com relação a estas modalidades médicas, através da implantação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares - PNPIC no SUS (Portaria 971 de 03/05/2006). Essa medida visa estimular ações e serviços relativos a estas práticas em um dos maiores sistemas de saúde pública da atualidade. Como condição prévia para preparo desta política nacional, o Ministério da Saúde realizou levantamento em 2004, identificando práticas integrativas em 26 estados brasileiros, num total de 19 capitais e 232 municípios. Este dado confirma a densidade destas práticas de saúde e reforça a necessidade de uma atenção ampla por parte do Estado. Por conseguinte, tal decisão recente do Ministério comporta alguns desdobramentos a serem considerados.

Determinados princípios são levados em conta para a implantação desta política de saúde. Um deles vem a ser a “visão ampliada do processo saúde/doença e a promoção global do cuidado humano”. Outro critério importante diz respeito a “estimular os mecanismos naturais de prevenção de agravos e recuperação da saúde por meio de tecnologias eficazes e seguras”. O documento destaca ainda “o desenvolvimento do vínculo terapêutico e a integração do ser humano com o meio ambiente e a sociedade”.

O princípio da visão ampliada da doença e da saúde se alinha às indicações de diversos estudos (e da própria OMS) que vêm tratando do tema. Tal visão procura cobrir dimensões diversas, considerando a experiência individual e coletiva das enfermidades, da cura e da saúde, levando-se em conta sua inevitável complexidade.

O reconhecimento dos mecanismos naturais para o cuidado da saúde confirma práticas sedimentadas na tradição local; o exemplo mais difundido é o uso de plantas medicinais, de diversas finalidades terapêuticas, como igualmente recursos provenientes de animais e substâncias do reino mineral. Cabe lembrar também a adoção de tecnologias leves, de caráter preventivo e curativo, tais como dietas alimentares, massagens, orações de descarrego, jejuns e exercícios meditativos, entre diversas práticas disseminadas no Brasil contemporâneo.

Ao incluir a medicina complementar no SUS, a PNPIC reconhece e legitima o que a população brasileira já vem aplicando em seu cotidiano de sofrimento e de desafios por qualidade de vida e bem-estar. Ao regulamentar o uso da acupuntura, homeopatia, fitoterapia e termalismo, o Ministério contempla métodos já consagrados de cuidados de saúde. Todavia, outros métodos terapêuticos não são considerados, tais como yoga, reflexologia, terapia floral, tai chi chuan, iridologia, dentre outros, reconhecidos pela biomedicina em alguns países. Caberia então aprofundar uma “política de inclusão terapêutica”, tendo em vista a riqueza de nosso pluralismo médico, de modo a fortalecer a complementariedade em detrimento da exclusão, favorecendo a variedade de opções de cuidados para a população.

João Tadeu de Andrade

O QUE É MENTE?

Qualquer organismo vivo é um complexo gerador de energia química, térmica, sonora, elétrica, magnética e luminosa, sem contar com as gigantescas energias quânticas presentes em cada um dos cerca de 1089 átomos que nos constituem. As reações químicas geram luz. O fluxo iônico gera a eletricidade e o fluxo elétrico gera o magnetismo. Cada molécula, na realidade, é um pacote energético que carrega alguma forma de informação. Para a ciência, o homem é um Ser quântico-molecular que se organiza em sistemas especializados e totalmente interligados em rede.

Tendemos a achar que é em nosso cérebro que ocorre a formação do fenômeno da consciência devido à sua atividade elétrica (0-100Hz) e magnética (10 mil fentostelas), mas hoje se sabe que o coração gera muito mais atividade elétrica (250Hz) e magnética (50 mil Fentostelas). Pensamos que o cérebro é o nosso centro de comando devido ao fato de centralizar uma grande quantidade de neurônios, mas esquecemos que o nosso aparelho digestivo possui um sistema nervoso próprio, que funciona totalmente independente do Sistema Nervoso Central (SNC), embora influenciado por ele.

Podemos até pensar que o cérebro é a sede de nosso Ser devido à imensa quantidade de sinapses produtoras de neuropeptídeos que abriga, mas sabe-se hoje, por exemplo, que ele é totalmente interdependente do aparelho digestivo, através do denominado eixo cérebro-intestinal, onde o aparelho digestivo é o responsável pela síntese de cerca de 90% da serotonina do organismo, um grande produtor de hormônio do crescimento e de acetilcolina (memória e pensamento), sendo considerado a maior glândula endócrina do organismo pela sua produção de dezenas de neurotransmissores intrínsecos. As alterações hormonais do aparelho digestivo o implicam em diversas alterações inusitadas como: obesidade, alterações do humor, anorexia, enxaqueca, psicoses, e até alterações na imunidade, como nas doenças de auto-agressão.

Hoje em dia, a visão de um sistema hierarquizado e linear cartesiano, que sugeria um comando cerebral supremo e central, alterou-se para um sistema em rede composto de pontos nodais de comando em que o cérebro é apenas mais um ponto nodal nessa rede de informações. Hoje já sabemos da existência de uma memória imunológica, uma memória cardíaca, uma memória renal e até uma memória muscular, configurando a existência da memória a nível celular e não mais orgânico-sistêmico. Todo fluxo energético (molecular, químico, eletromagnético, etc.) é um fluxo informacional (tudo é informação), e esse fluxo informacional (nossa mente) ocorre em todo o corpo, SIMULTANEAMENTE independente de tempo e espaço (como no mundo quântico).

Até a década de 1.960 se considerava o cérebro como o centro de comando corporal devido ao seu funcionamento de comando de base elétrica: o cérebro elétrico. Com base nisso, pensamentos e sentimentos seriam produtos da atividade elétrica neural, sendo o cérebro o comandante supremo. Então, com o advento da emergente ciência da neurofarmacologia, pesquisas revelaram que a comunicação interneuronal se faz principalmente através da descarga sináptica de substâncias químicas, que foram chamadas então de neurotransmissores, determinando que a comunicação elétrica é apenas cerca de 2% daquela comunicação.

Somente no córtex cerebral existe uma quantidade de cerca 15 a 20 bilhões de neurônios, cada um fazendo, em média, 60 mil sinapses. A maior parte da atividade neuronal cerebral (cerca de 98%) se faz através dessa rede sináptica (utilizando neurotransmissores como a acetilcolina, noradrenalina, dopamina, histamina, glicina, GABA e serotonina), sendo ela a responsável por nosso intelecto consciente e por nossa autoconsciência subjetiva. Uma segunda categoria de transmissores é composta dos esteróides (que incluem os hormônios sexuais e o cortisol).

A partir de 1.972, com as pesquisas pioneiras de Candace Pert Ph.D, surgiu o conceito de cérebro químico e de neuropeptídeos: substâncias químicas compostas de cadeias moleculares muito menores do que as dos neurotransmissores clássicos. Mas a década de 1.980 presenciou a descoberta da rede de informações do sistema imunológico, da mudança de conceito dos neuropeptídeos, que passaram a se chamar simplesmente de peptídeos, por não agirem somente no circuito neuronal, e da introdução, em 1.984 por Francis Schmitt (do Instituto Tecnológico de Massachussets – MIT), do termo “substâncias informativas”: as “moléculas da informação”. Descobriu-se que o sistema imune se comunica com o cérebro (incluindo o nosso cérebro emocional – sistema límbico) via “imunopeptídeos” e que recebe informações dele via neuropeptídeos, configurando um mecanismo de intercomunicação englobando também o sistema endócrino.

Hoje, a psiconeuroimunologia estuda a íntima intercomunicação e repasse de informações entre seis sistemas informacionais principais (o cérebro químico e os sistemas endócrino, imunológico, intestinal, cardíaco e tegumentar – pontos nodais dessa rede de informações). Cada um conta com uma produção própria de peptídeos circulando através do espaço extracelular, sangue, linfa e líquor. Considera-se que os peptídeos (como as endorfinas, encefalinas, somatostatina, gastrina, secretina, grelina, neuropeptídeo Y, leptina, etc.) constituem cerca de 95% de todas as substâncias informacionais, que funcionam em rede, numa escala de tempo e espaço muito mais ampla do que a do cérebro elétrico.

A fisiologia dos peptídeos anda junto com a fisiologia dos receptores (que também são proteínas), sendo essas moléculas muito maiores do que aquelas primeiras. Já foram identificados cerca de 70 tipos diferentes de receptores, situados aos milhões por toda a extensão da membrana celular de todas as cerca de 75 trilhões de células de nosso corpo. São nossos órgãos dos sentidos a nível celular e sua estrutura molecular (cerca de 2,5 mil vezes mais pesada que a molécula da água) funciona como uma fechadura onde somente determinados peptídeos podem se acoplar, como num binômio chave-fechadura.

Como toda molécula, peptídeos e receptores apresentam determinados padrões vibratórios. Quando os peptídeos se chocam com os seus respectivos receptores (encaixando-se e soltando-se algumas vezes), esses mudam suas propriedades moleculares mudando, conseqüentemente, seus padrões vibratórios e suas próprias formas tridimensionais, e é essa mudança de conformação (em duas ou três conformações principais) que transfere a informação para o interior da célula ocasionando uma cascata de eventos com profundas mudanças no meio intercelular (abertura ou fechamento de canais iônicos, mudanças energéticas de produção ou gasto de fosfatos, etc.), podendo afetar até o próprio núcleo da célula (tomando decisões acerca da divisão celular ou síntese protéica). Uma fantástica sinfonia vibratória está ocorrendo ininterruptamente em todas as células de nosso corpo.

Mais fantástico ainda é o fato de que os peptídeos são produzidos por todo o corpo, ligando-se e desligando-se de seus receptores, de forma sincrônica e simultânea. Não é um processo linear de produção, distribuição e ligação a receptores distantes, mas um processo simultâneo em rede que ocorre totalmente inconsciente em informativas surge simultaneamente em diversos pontos nodais nos diferentes sistemas orgânicos: imune, endócrino, gastrintestinal, nervoso, etc., e não de uma forma hierárquica a partir do SNC. Esses pontos nodais são regiões de grande afluxo de pontos conhecidos como pontos nodais. Sim, comprovadamente o fluxo das substânciasinformações elétricas e químicas sendo influenciados por quase todos os neuropeptídeos, priorizando, ou não, determinadas informações que vão produzir, ou não, determinadas mudanças fisiológicas.

Em nosso sistema nervoso central todos os pontos nodais servem como uma espécie de filtro sensorial, estando presentes em nosso córtex pré-frontal, sistema límbico, tálamo, hipotálamo (relacionado com o nosso processo de aprendizado), tronco cerebral e por toda a extensão da medula espinhal (em seu corno posterior), por onde chegam as informações sensoriais do mundo externo (pelo tato) e do mundo interno (dos nossos órgãos internos). Por exemplo, estímulos nos núcleos pontinos de Barrington, dependendo de qual peptídeo está agindo, podem fazer surgir desejos sensuais ou miccional (com imagens mentais associadas), desde uma forma inconsciente até a de urgência consciente, configurando uma inter-relação multidirecional entre sensações e desejos corporais com emoções e pensamentos conscientes.

Somente 0,0000005% do processamento cerebral é integrado conscientemente. Na verdade, apenas o que atinge nossos centros corticais é o que se torna um pensamento consciente da forma como o percebemos. É o processo de filtragem nodal, que nasce da interação receptor-peptídeo, que diz o que deve se tornar, ou não, uma sensação, sentimento ou emoção consciente. Essa interação receptor-peptídeo depende da quantidade e da qualidade dos receptores nos pontos nodais, que, por sua vez, depende da forma como reagimos às nossas experiências sensoriais cotidianas (alimentação, tato, música, odores, etc.). Como assim!?

Fabricamos peptídeos de acordo com o fluxo informacional que chega nos pontos nodais e esses peptídeos podem produzir toda a enorme variedade de estados emocionais que experimentamos cotidianamente. Há peptídeos para raiva, para tristeza, para desejo, para vitimização, para alegria e bem estar, etc., sintetizados em todo o nosso corpo e, no sistema nervoso central, principalmente em nosso hipotálamo.

Se um determinado grupo de receptores for estimulado por um longo tempo e com grande intensidade, paulatinamente seu número diminuirá, perderão sua sensibilidade e até a sua eficiência, de forma que a mesma quantidade de peptídeo interno vai produzir uma resposta menor. Ou, de uma outra forma, quando essa célula finalmente resolver se dividir, as novas células terão mais receptores para aqueles peptídeos neurais daquela emoção em particular e menos receptores para vitaminas, minerais, nutrientes, troca de fluidos, ou mesmo para a liberação de toxinas.

Em resumo, com o tempo haverá uma necessidade celular bioquímica intrínseca por certos peptídeos (dependência química) que alterará o nosso comportamento para que consigamos fabricar esses determinados peptídeos. Se estivermos dependentes bioquimicamente de raiva, inconscientemente buscaremos provocar situações que nos impulsionem a síntese de peptídeos de raiva, e assim por diante. Criamos hábitos e padrões de conduta para satisfazer nosso vício endógeno emocional, para satisfazer as necessidades bioquímicas das células de nosso corpo.

Na realidade, todos os nossos pensamentos, idéias e sentimentos são construídos de uma forma associativa e interconectados em rede. Por exemplo, associamos o prazer e o bem estar de degustar uma determinada iguaria com o prazer que sentimos advindo de nossos outros sentidos (da companhia que tivemos, das alegrias que sentimos, etc.) no dia que a experimentamos pela primeira vez. Ou seja, todos os nossos conceitos são armazenados nessa vasta rede corporal usando peptídeos como sinais, associando-os com outros eventos que ocorreram simultaneamente ou previamente, recuperando ou reprimindo emoções e padrões comportamentais.

Esses hábitos e condicionamentos, quando repetidos freqüentemente, acarretam uma verdadeira mudança na configuração de nossa rede sináptica neuronal cortical, literalmente reconfigurando o nosso cérebro (um processo conhecido como aprendizagem) com esse padrão de resposta e atitude perante nossos estímulos externos (e internos). As emoções são um importante componente nesse mecanismo de aprendizado. Assim, para muitos neurocientistas, as mudanças bioquímicas que ocorrem ao nível dos receptores são a base molecular de nossa memória, numa rede psicossomática que se estende por todas as nossas células em todo o nosso corpo.

“A decisão acerca do que se torna um pensamento subindo para a consciência e o que permanece um padrão de pensamento ‘não-digerido’ e submerso nas profundezas do corpo é mediada pelos receptores. Eu diria que a memória ser codificada ou armazenada ao nível de receptores, significa que os processos de memória são movidos por emoções e são inconscientes, mas (como outros processos mediados por receptores) podem, às vezes, tornarem-se conscientes... A mente seria o fluxo de informações que se move entre as células, órgãos e sistemas do corpo...”

Candace Pert

Aqui, então, começa a convergência entre a neurociência e as tradições sapienciais, quando passamos a perguntar quem é que está experimentando as sensações e construindo hábitos e condicionamentos. De onde vem essa inteligência que permeia toda essa rede informacional bioquímica e dirige aquilo que conhecemos como corpo e mente? Quem é esse Observador que percebe o mundo e observa suas aparentes diferenças?

Tanto a física quântica quanto a teoria da informação já incluem o Observador em suas equações, como um nível inteligente capaz de introduzir mudanças no sistema, através do influxo de informações. O Observador é o princípio inteligente capaz de reconhecer hábitos, condicionamentos e vícios, e o único capaz de, através do fluxo de novas informações, mudá-los, criando novos hábitos e comportamentos. Da mesma forma que a informação existe além do tempo e do espaço, além da matéria e da energia, o Observador, orientador desse fluxo informacional, também deve habitar além de nossa tridimensionalidade.

Cláudio é médico com especialização em cirurgia geral e laparoscópica, psicoterapeuta, teósofo, tanatólogo, É Terapeuta Clínico do Colégio Internacional dos Terapeutas (CIT) e Presidente do Instituto Cultural Dinâmica Energética do Psiquismo (ICDEP) no Ceará

segunda-feira, 22 de março de 2010

A Diferença entre Concentração e Meditação


Muito se tem escrito e falado sobre Meditação e Concentração e então podemos estabelecer diferentes premissas do processo de Meditar e Concentrar. Ciências como o Yoga, tradições como o Budismo e suas várias vertentes tem ao longo de sua história se situado entre estes dois pontos: Meditar e Concentrar.
Mais recentemente a Ciência tem demonstrado interesse e se dedicado sobre este assunto especialmente no tocante a neurofisiologia no estudo das “infinitas possibilidades dos caminhos neuronais” que surgem quando fazemos mão da Meditação e da Concentração que possibilitam o uso de partes do cérebro até então pouco usadas.
É interessante a visão do Yoga Integral de Sri Aurobindo que coloca diferença entre Meditar e Concentrar. Então temos o que Rolf Gelewski, discípulo de Aurobindo e da “Mãe” Mira Alfassa escreve nas linhas abaixo:

“Concentrar significa centralizar, fazer convergir em um campo, unir em um ponto determinado este ponto passa a ser um lugar de referência para movimentos que se efetuam a seu redor e, desta maneira, a adquirir uma função e poder de orientação; então os movimentos, reagindo a crescente definição e estabilidade do ponto, chegam a se relacionar diretamente com ele, rodeando-o ou convergindo para ele ou se afastando dele, e assim se cria um contexto, uma constelação específica onde o ponto assume a posição de um centro. Todos os movimentos que neste centro convergem trazem para ele e acumulam nele as energias, das quais foram até então, manifestação: transformam-se em potenciais. É por isto que a concentração não significa um estado ou um valor qualquer, mas um estado de intensidade crescida, o valor de uma nova força, um poder – porque é a união de muitas energias em só ponto ou campo.”


Continuando a sorver a água do Yoga Integral temos a definição outorgada por Sri Aurobindo:

“Meditação é uma atividade puramente mental, ela interessa sómente ao ser mental…”
“…A pessoa pode se concentrar enquanto medita, mas esta é uma concentração mental; pode chegar a um silêncio, mas é um silêncio puramente mental, e as outras partes do ser são mantidas imóveis e inativas a modo de não perturbar a meditação…”

Sabemos, como o nome já nos diz, que o Yoga Integral visa à integração do Homem no seu aspecto do Todo. Corpo Físico, Corpo Mental, Corpo de Energia e Corpo Espiritual devem-se integrar neste Todo que é em essência o Ser Total ou o que Verdadeiro é.

“…conheci pessoas em minha vida cuja capacidade para meditação era notável, mas que quando não estavam em meditação, eram pessoas inteiramente comuns, às vezes gente de mau temperamento, que ficaria furiosa se sua meditação fosse perturbada. Pois eles tinham apenas aprendido a dominar a sua mente e não o resto do seu ser.” ( A Mãe,Mira Alfassa)

Em relação ao enunciado da Mãe podemos nos reportar ao autor Jack Korfield que no seu livro “Depois do Êxtase, Lave a Roupa Suja”, da Editora Cultrix onde relata várias experiências de mestres da Arte de Meditar que depois de perceberem seus samadhis, atingindo o Êxtase, voltaram a vida mundana em todas as suas situações, entrando em choque com seus discípulos, virando alvo da especulação pública.
Podemos então estabelecer que a diferença entre Meditar e Concentrar seria uma questão de objetivo. Enquanto concentrar em um só ponto pode acontecer com um lavrador que ara a terra focando sua atenção na enxada que provoca o sulco no solo visando plantar a semente que dará o sustento na próxima colheita e então ele vive “aquele momento presente”, enquanto um meditador na sua sala de meditação visa concentrar num só ponto mas percebendo as diferentes matizes de sua mente que ocorrem durante a sentada com a finalidade meditativa. Então o meditador tem um objetivo que o de parar, concentrar para depois meditar e lavrador para no seu objetivo o de efetivamente concentrar. Podemos dizer ele é a terra, a enxada, a semente numa perfeita integração. Podemos dizer que o meditador tem o objetivo de perceber-se o “Todo”, observando suas ondulações mentais e sensações corporais independente do foco como por exemplo: ao sentir uma sensação de coceira ele treina percebendo que esta coceira não é ele, não é dele, mas apenas uma percepção impermanente e ilusório fruto de sua projeção mental.

“Concentração, para o nosso Yoga significa que a consciência é fixada num particular estado (por exemplo paz) ou movimento (por exemplo, aspiração,vontade, entrar em contato com a Mãe, tomar o nome da Mãe); meditação é quando a mente está olhando para as coisas a fim de adquirir o conhecimento correto.” (Sri Aurobindo)

O que almejamos com este artigo não é concluir este assunto, mas sim levar a uma reflexão sobre o tema Meditação e Concentração. Enfatizamos que Meditação e Concentração são grandes possibilidades de levar o Amor e a Compaixão para as pessoas: o meditador na sua sentada oferece a sua meditação ao próximo e irradia o Amor em toda a sua possibilidade para toda a humanidade. Aquele que concentra oferece o fruto da sua concentração ao próximo, e que o trabalho e sua produção resultante deste concentrar atinja toda a humanidade numa prestação de serviço essencial para todos nós.

As citações de Sri Aurobindo, da Mãe (Mira Alfassa) e de Rolf Gelewnski foram extraídas da Revista Ananda de 1992, da Casa Sri Aurobindo, Belo Horizonte-MG cujo título é: “Concentração: seu valor na vida e no Yoga (porque e como concentrar-se)”

By Nello Baia Jr

Do Ego e dos Ásanas


Por Tereza Freire, que mora e pratica Yoga em São Paulo. Dirigiu com parceria com Daisy Rocha o documentário “Caminhos do Yoga” filmado em 2003.

http://caminhosdoyoga.blogspot.com/Foi preciso que eu pegasse uma conjuntivite que me obrigou a parar temporariamente com os ásanas para aprofundar a minha prática de meditação…

Praticar Ashtanga Vinyasa Yoga é paradoxal. Ao mesmo tempo que fortalece o corpo, e consequentemente o ego, a prática também te coloca no devido lugar quando o ego começa a soltar suas asinhas.

Afinal, praticamos Yoga para domesticar este pequeno monstro que habita em todos nós. Mais um paradoxo: é pequeno e é monstro… Pequeno, se pensarmos na imensidão do Ser, e monstro porque exerce um poder imensurável em nossas vidas.

É preciso tomar muito cuidado para a prática de Ashtanga Vinyasa Yoga não virar “Ashtego”. Ela parece ter sido sistematizada para nos testar. Quem pratica seriamente, seis dias por semana, inevitavelmente fica com um corpo forte, saudável e vigoroso.

Mas se este for o fim e não um meio para se chegar num outro patamar, invariavelmente a gente acaba se machucando, porque vai querer fazer ásanas cada vez mais complicados, pois o ego quer sempre mais…

Praticamos ásanas para atingirmos o estado de meditação. Na Índia, muitos praticantes já nem precisam de ásanas. Na sua cultura, as pessoas tem o costume de sentar no chão e não em cadeiras. Qualquer um senta em padmásana. No ocidente, crescemos em cadeiras, não temos o corpo preparado para meditar. Precisamos de ásanas.

É uma prática sedutora, que nos instiga a buscar a perfeição e a harmonia e nos desafia, por conter séries com graus de dificuldade diversos. Portanto, é preciso esforço e perseverança para avançar nas séries. Penso que para pessoas ativas e com dificuldade de manter a concentração e disciplina, pode ser uma prática indicada.

Tenho amigos que não se interessam pelo lado filosófico ou espiritual do Yoga e praticam Ashtanga Vinyasa Yoga todos os dias da semana. Gostam do fato de ser uma prática vigorosa e que produz bem estar e emagrece. E só. Pelo menos, é um começo, penso. Com o tempo, a pessoa verá que está desperdiçando o melhor que o Yoga pode oferecer, que é o auto conhecimento. Que o bem estar é só o começo de um caminho sem volta. E o contato com os professores e mestres abrirão as portas para esta viagem.

Mas descubro que muitas vezes a prática de Ashtanga Vinyasa Yoga acentua o narcisismo e torna-se um fim em si mesmo. Descontextualizamos sua origem, criamos métodos, enfeitamos com luzes, música e figurinos e o que deveria ser uma prática meditativa vira show de talentos. O bom ashtangi passa a ser o bom “ásaneiro”.

Falo com conhecimento de causa porque isso aconteceu comigo. Deslumbrei-me com a prática e desrespeitei meu corpo a ponto de pegar uma conjuntivite que me proibiu por duas semanas de fazer qualquer postura em que minha cabeça ficasse abaixo do coração. Tive que interromper a prática.

Descobri que tinha medo de meditar!!! Tinha me acostumado a fazer um mantra no começo, meditar em movimento, respirar nos ásanas e finalizar com mais um mantra.

Quando me peguei impossibilitada de sair de casa, resolvi encarar: meu corpo me dizia que precisava descansar. Não tinha como fugir da meditação.

Yogashchittavritti nirodhah.
[Yoga é a desidentificação com as flutuações do ego-mente]

Fechei os olhos e esperei… Vontade de me mexer, de cantar, de me alongar, de rezar, todos os pensamentos do mundo reunidos numa só mente. Fiz pranayamas, visualizações, usei todos os recursos que conhecia para acalmar os vrttis de minha chitta (flutuações do ego-mente).

Decidi só levantar quando acalmasse meu vrttis. Surgiu mais um: a dor nas costas. Cedi, levantei frustrada, mas com a sensação de ter tentado. Descobri que meditar exige tanta disciplina quanto praticar ásanas, ou quanto qualquer coisa que se quer fazer bem. Requer dedicação. No dia seguinte, tentei de novo, no outro também, e a cada dia sentia que o esforço trazia resultados.

Um dia, quando menos esperava, senti que tudo se encaixava, que eu me sentia plena, que naquele momento, não havia nada mais que eu desejasse, que eu poderia até morrer fisicamente porque tudo estava em paz.

Não sei quanto tempo durou, sei que voltei atraída por um som qualquer. Nem que tenha sido apenas um segundo, foi um dos mais intensos de toda minha vida. O vazio fez um eco no meu coração. Talvez isto seja chittavrtti nirodhah, a desidentificação com os conteúdos do ego e da mente.

Totalmente recuperada dos olhos, voltei a minha prática diária de Ashtanga Vinyasa Yoga. No entanto, de uma forma diferente. Mais generosa e tolerante com meus limites e, principalmente, com os limites dos outros. Precisei ficar doente dos olhos para conseguir enxergar com a alma…

Namastê!


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Tereza é yogini, mora e pratica em São Paulo. Dirigiu e produziu, em parceria com Daisy Rocha, o documentário Caminhos do Yoga, filmado na Índia em 2003.

Câncer de Mama x Psicossomática












Segundo a psicossomática enviesada pela psicanálise, o adoecimento físico está associado no indivíduo, à supressão de afetos e à evitação de conflitos por parte dos sujeitos que suprimem tais afetos; então, questões outras, como luto não elaborado ,empobrecimento de representações e da capacidade de associação de idéias contribuem para o desenvolvimento de doenças, como câncer de mama.
Na vida do sujeito, todos os acontecimentos geram excitações no organismo que precisam ser descarregadas e as vias responsáveis poe esse “descarregar” são a elaboração mental e os comportamentos motores- na medida que essas excitações não são escoadas, elas acumulam e vão atingir o físico do indivíduo, de forma patológica.
Essa questão está associada à falhas na mentalização devido a pobreza e falta de qualidade das representações existentes no pré-consciente de alguns sujeitos. E como se sabe, as representações são a base da vida mental pois são elas que são responsáveis pela associação de idéias, pensamentos e reflexão interior.
No que concerne ao fator genético do câncer de mama,ou seja, nas famílias que muitas mulheres de gerações diferentes desenvolvem essa doença, é percebido uma instância materna que ancoura os conflitos existentes e as excitações advindas destes, de dado grupo familiar. Assim, é como se em cada geração, permanecesse simbolicamente um corpo materno no qual se moldam os operadores da psiquê que permitem a circulação das pulsões.
E nesse corpo materno podemos nos remeter às sensações iniciais entre mãe e bebê que se estendem para as relações subjetivas entre os membros das família. Então, a família é como se fosse um espaço que simboliza todas as angústias, medos e demais representações de cada membro familiar, independente à geração; conseqüentemente, a "família” colabora na estruturação psíquica do sujeito pois é ela que vai influenciar o processo de subjetivação à partir da função materna e também vai ser um espaço de metabolização dos conflitos familiares; e devido a isso, desenvolve-se a herança familiar para dada doença, como por exemplo o câncer de mama entre as mulheres do mesmo núcleo familiar pertencentes à várias gerações. Além disso, como se sabe, o câncer de mama tem uma representatividade em relação ao exercício da maternidade e da sensualidade da mulher .

By Robertta Bezerra
CRP 11/04016

Bibliografia:

Liderau R., Oncogènes et pronostic des cancers mammaires, in Serin D. et coll. (Orgs) Cancer du sein. Définition du risque métastatique, Paris, Masson, 1987, pp. 41-44.
Liderau R. et all., Genetic Variability of Proto-oncogenes for Breast Cancer Risk, Biochimie, 1988, 70, pp. 951-959.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Alguém se identifica com esse trecho?



Um amigo está lendo um livro e me encaminhou o seguinte trecho:

"Apesar de não se encontrar perdidamente apaixonada por esse homem, ele era boa pessoa, e ela pensava que tal relação lhe iria trazer alguma estabilidade à sua vida. Mas a paixão numa relação não pode ser artificialmente criada. Pode existir respeito, pode existir compaixão, mas a química tem que surgir desde o início."

E assim, passei a refletir sobre algumas questões da vida....

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Mudança



Por esses dias, andei pensando sobre o significado das mudanças que ocorrem em nossas vidas e percebi que muitas vezes elas são necessárias para o nosso crescimento pessoal. Para mim, essa palavra vem carregada de simbolismo e sentido- pois mudar exige abertura do eu observador além de exigir reconhecimento dos nossos limites internos. Mais uma coisa é certa:mudança é um reinicio do nosso ciclo vital,é coragem para encarar os resultados advindos dela e resiliência para recomeçar.Mudar é crescer, é se abrir para o novo e perceber que sempre temos uma nova oportunidade de recomeço.

Bertta

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Uma Rede Psicossomática



Lúcia Valéria da Silva

Artigo escrito para o Módulo ”Yoga Milenar e a Ciência Atual” do Curso de Pós-Graduação em Yoga, ministrado por Cláudio Azevedo

Inicio meu trabalho reescrevendo dois parágrafos do texto “Uma Viagem Energética” em que o autor narra o seguinte:

Na realidade, todos os nossos pensamentos, idéias e sentimentos são construídos de uma forma associativa e interconectados em rede. Por exemplo, associamos o prazer e o bem estar de degustar uma determinada iguaria com o prazer que sentimos advindo de nossos outros sentidos (da companhia que tivemos, das alegrias que sentimos, etc) no dia que a experimentamos pela primeira vez. Ou seja, todos os nossos conceitos são armazenados nessa vasta rede corporal usando peptídeos como sinais, associando-os como outros eventos que ocorrem simultaneamente ou previamente, recuperando ou reprimindo emoções e padrões comportamentais.

Esses hábitos e condicionamentos, quando repetidos frequentemente acarretam uma verdadeira mudança na configuração de nossa rede sináptica neuronal cortical, literalmente reconfigurando o nosso cérebro (um processo conhecido como aprendizagem) com esse padrão de resposta e atitude perante nossos estímulos externos (e internos). As emoções são um importante componente nesse mecanismo de aprendizado. Assim para muitos neurocientistas, as mudanças bioquímicas que ocorrem ao nível dos receptores são a base molecular de nossa memória, numa rede psicossomática que se estende por todas as nossas células em todo o nosso corpo.

Estes dois parágrafos falam a respeito de todas as memórias que guardamos em nosso corpo.

Meu trabalho diário tem muita ligação com tudo isso, pois toco o corpo das pessoas e quando o faço consequentemente estou tocando em suas memórias. As dores que relatam, por exemplo, as musculares podem estar relacionadas com suas emoções contidas. Em seu artigo “Neuropeptídeos: as Emoções e a Mente do Corpo – A Bioquímica das Emoções” a Doutora Candace Pert cita o seguinte


Então, o que observamos é que existe uma interação do corpo e da mente. E o corpo traz as respostas mais verdadeiras do nosso self. Se estamos felizes todos os nossos órgãos ficam felizes e se estamos tristes a tendência é entristece-los e essa tristeza pode manifestar-se em forma de doenças.

A doença seja ela qual for, pode ser entendida como uma perturbação mal resolvida no equilíbrio interior do ser vivo, e em sua interação com o meio ambiente. (SILVA, Marco Aurélio Dias da, Quem ama não adoece).

Como escreveu Mandsley, há mais de 100 anos, “Se a emoção não se libera, vai agarrar-se aos órgãos perturbando seu funcionamento”.

Há pessoas com mais tendência a somatizações. São aquelas que tem dificuldades de expressar seus sentimentos tanto de tristeza quanto de alegria. Essas pessoas são sérias candidatas a crise de depressões. Existem aquelas que não conseguem responder ou resolver os insultos, e ficam remoendo sua raiva até que essa se torne uma gastrite ou úlcera. No artigo: ”A Psicossomática” o Professor Cláudio Azevedo escreve o seguinte:

A somatização, em geral, é uma válvula de escape para as emoções e os sentimentos com os quais não se consegue lidar. Atualmente, pode-se afirmar que todas as doenças têm ao menos algum fundamento psíquico, mas em alguns casos a participação dos estados emocionais no desencadeamento ou na evolução da doença é mais evidente.

Entre as mais conhecidas temos as doenças alérgicas, como a asma brônquica e as dermatites, as doenças gastrintestinais, como as úlceras gástricas, a retocolite ulcerativa e a diverticulite e as doenças auto-imunes, como o lúpus. As tireoideopatias e suas relações com as emoções, as cardiopatias, o câncer, as dermatopatias (acne, alopécia areata, dermatite atópica e seborréica, psoríase, o vitiligo e a urticária), a disidrose (suor excessivo nas mãos e pés) e as doenças infecciosas que surgem junto a quadros emocionais (como gripes sucessivas em um período depressivo) são outros exemplos.

O desencadeamento de doenças imediatamente após brigas, sustos, períodos de crise emocional, stress, mudanças na vida ou outros fatores desencadeantes, demonstram que essa interação psicossomática é real e está muito presente em nossa vida.

Se os fatores desencadeantes da psicossomatizações são reais e estão muito presentes em nossas vidas como libertar-nos deles?

Penso que o último parágrafo do artigo “Uma Viagem Multidimensional na Realidade” poderá responder esta pergunta.

A verdadeira liberdade do ser humano é a capacidade consciente de transitar, como Observador, por essas dimensões pessoais e transpessoais pelo aumento de nossa percepção consciente, e assim poder acessar a dimensão energética do nosso inconsciente familiar, do nosso inconsciente simbiótico, do nosso inconsciente coletivo, do nosso inconsciente cósmico, pré-cósmico (angelical), do Ser e do Aberto.

Tentar observar nossos sentimentos, manter-se controlado e só depois agir, seria o ideal, pois não reprimiríamos as emoções e agiríamos de modo mais claro. Como estudante de Yoga, busco este caminho; busco aprender a observar; a controlar as emoções e ao mesmo tempo, tentar agir de forma correta.

Referências Bibliográficas
•SILVA, Marco Aurélio Dias da, Quem ama não adoece/ Best Seller Ltda
•AZEVEDO, Cláudio; SÁ, Iracema, Yoga: Formando Instrutores/ Òrion Edições, 2007
•Artigo: “Neuropeptídeos: as Emoções e a Mente do Corpo – A Bioquímica das Emoções” Doutora Candace Pert
•Artigo: ”A Psicossomática” Professor Cláudio Azevedo

A contradição humana




Ricardo Lindemann
(Membro da Sociedade Teosófica pela Loja Dharma, de Porto Alegre-RS)

(Apresentamos aqui o primeiro capítulo do livro A Tradição Sabedoria – Uma Introdução à Filosofia Esotérica, de Pedro R. M. Olveira e Ricardo Lindemann. Para ver uma resenha deste e de outros livros veja o catálogo da Editora Teosófica).

“Errarre humanum est” (Errar é humano) é um provérbio latino tão antigo que sua origem já é desconhecida; contudo, o seu conteúdo parece cada vez mais atual. Estamos já acostumados, a conviver com os erros humanos ou, em outras palavras, com as contradições dos seres humanos. Os filósofos, desde tempos imemoriais, bem como todas as religiões do mundo, falam da fraternidade e da paz; no entanto, alem das absurdas guerras entre grupos religiosos fanáticos, corre-se o risco de uma guerra atômica que exterminaria a raça humana. Avalia-se em um milhão de dólares por minuto o gasto na produção de novas armas nesse planeta, sem levar-se em consideração o custo de manutenção dos exércitos, as fortunas que nutrem o tráfico de entorpecentes e outras formas de degradação. Enquanto isso, diariamente, morrem quarenta mil crianças de problemas derivados da subnutrição no mundo em desenvolvimento; sem falar nas mortes não menos estúpidas dos suicidas dos países desenvolvidos ou das decorrentes de guerras e atos terroristas que pretendem buscar a paz e o bem estar da Humanidade através de qualquer meio. Por que falamos tanto em amor e paz e vivemos nesta violência impressionante?

Sabe-se que hoje seria possível resolver os problemas da fome, saúde e educação do gênero humano somente com os recursos há pouco citados, de forma que se torna difícil justificar tanta miséria. Entretanto, enquanto os sistemas de direita e esquerda justificam-se reciprocamente no “empilhamento” de bombas, e os terroristas ficam a justificar sua covardia com ideais de justiças, o mundo agoniza. Não é tudo isso incrivelmente contraditório?

É também conhecido o fascínio que o ser humano tem pelo poder e as mórbidas “necessidades” daí decorrentes. Talvez seja mesmo a vaidade e o anseio pelo poder que criem todo esse cruel panorama no mundo. Curiosamente, essa “necessidade” de impor a sua vontade e exercer o poder sobre os outros apresenta-se de modo geral, diretamente proporcional à incapacidade de o ser humano dorminar-se a si mesmo. Pode haver maior contradição? O ideal da filosofia platônica já era, como teria colocado Sócrates, que o homem se tornasse “senhor de si mesmo” após ter conhecido a si próprio; enquanto no Oriente, Buda, quase na mesma época, dizia que “mais glorioso não é quem vence em batalhas milhares de homens, mas sim quem a si mesmo vence”.

A Sra. Rada Burnier, conhecida conferencista, Presidenta Internacional da Sociedade Teosófica, tem afirmado que: “Não se pode perguntar agora se a paz mundial é uma possibilidade, pois ela é uma absoluta necessidade. Sem fraternidade, cooperação e paz, a Humanidade pode cessar de existir”.

Enquanto isso, a Ciência e a Tecnologia, lastimavelmente atreladas a interesses políticos, estão hoje a construir bombas atômicas tão poderosas que fazem daquela que destruiu Hiroshima, há quarenta anos atrás, um brinquedo para crianças. Dessa forma, torna-se fácil ver que, quanto mais poder o ser humano tiver antes de resolver a sua contradição, tanto pior será para a vida neste planeta: e a solução da contradição do homem encontra-se dentro dele mesmo e não fora. É porque o homem não é “senhor de si mesmo” que ele se torna perigoso. Seu conflito interior, sua contradição expressam-se em tudo que ele faz.

Quanto mais conhecimento e poder dermos ao homem, tanto pior será, não porque o conhecimento e o poder sejam deletérios em si, mas porque o homem, estando perturbado, em contradição devido à falta de autoconhecimento, não pode ter autodomínio. E não é um tanto quanto temerário dar-se poder a quem não possui autodomínio? Nossa civilização tem subestimado o autoconhecimento, considerando-o coisa de pouco valor prático, e os resultados são bem visíveis e práticos: estamos à mercê dos caprichos e infantilidades de seres humanos contraditórios e imaturos.

Por que homens como Sócratres e Buda, já há tanto tempo, consideravam o autoconhecimento como fundamental? Iniciemos nossa investigação analisando o problema do hábito. O que é um hábito? Para tentar responder, consideremos como funciona o cérebro. Cada pensamento, de acordo com sua característica, aciona uma corrente elétrica num circuito específico de neurônios cerebrais. Isso ativa aqueles neurônios daquele circuito. A reincidência nesse mesmo pensamento ativa os mesmos neurônios em detrimento, relativamente, da grande maioria que são os outros. Assim, a repetição da mesma corrente elétrica através do mesmo circuito de neurônios cria uma situação que favorece cada vez mais a repetição de todo processo.

Por esse motivo, o pensamento, a emoção e a ação são processos produtores de hábitos. Isso pode tornar-se bem mais evidente se nos lembrarmos de que o neurônio é uma célula viva e, portanto, particularmente mais sensível à repetição dos estímulos do que um simples circuito elétrico, que é inerte. Caso nós nos aprofundemos nessa questão, descobriremos, talvez com espanto, que características de nossa personalidade, com as quais nos identificávamos como sendo “nós mesmos”, não passam de hábitos: reações “mecânicas” do nosso passado. São condicionamentos com os quais nossa consciência se identificou. Desta forma, estaremos começando a descobrir quão pouco nós conhecemos de nossa real natureza.

Um exemplo disso está no desconhecimento que costumamos ter a respeito das emoções que se manifestam em nós. Todos nós sabemos, por experiência própria, quão perturbadora é a emoção do ódio e quão harmonizante pode ser o amor, quando genuíno. Entretanto, será que todos somos conscientes da razão por que isso é assim? Recomendamos que o leitor investigue essa questão. Embora ela pareça simples, pode, sendo suficientemente aprofundada, levar-nos à própria essência do ser humano, que só pode ser conhecida de maneira direta por uma investigação atenta e profunda na consciência do próprio indivíduo.

É comum ver-se o ser humano fugir das questões que exigem profunda atenção, porque é mais fácil receber ensinamentos prontos e repeti-los como até um papagaio pode fazer; mas o autoconhecimento não pode ser fornecido por terceiros: ele só pode ser fruto de nossa própria investigação. Porem, pode ser de alguma utilidade fazer algumas considerações introdutórias sobre o tema, mas que, evidentemente, não podem jamais substituir a auto-investigação.

Pode-se observar que a pessoa humana é constituída de diversas “vontades” que, não raramente, se contradizem, por exemplo, quando estamos assistindo a uma filme ou a uma novela na televisão que nos empolga, gerando emoções que sentimos vivamente, pode surgir um conflito entre a vontade da sensação, que quer continuar assistindo ao filme, e um eventual apelo do corpo por descanso, que se manifesta por meio de uma crescente sensação de “peso” nas pálpebras. A fome, a sede etc. Podem gerar conflitos similares. Isso demonstra de maneira bastante prática que a vontade do corpo e a da sensação nem sempre coincidem, e não é raro observar as pessoas levarem seu corpo a excessos, devido a sua paixão momentânea despertada por alguma sensação.

Ora, fôssemos o corpo, nossa vontade sempre se identificaria com a vontade dele e jamais ocorreria conflitos ou excessos, pelo menos no que tange à saúde física e estaríamos, antes de mais nada, preocupados com nossa saúde física. Como costuma dizer o Eng. J. Lutzenberger, ecologista internacionalmente conhecido, se fôssemos verdadeiramente materialistas, estaríamos, antes de mais nada, preocupados com nossa saúde física e com a conservação ecológica do meio ambiente; entretanto, nossa “civilização” não tem demonstrado isso. A grande massa da Humanidade tem estado preocupada com a sensação, mesmo que isso tenha acarretado perda de saúde, acionado a ambição, causado guerras e desastres ecológicos. Se um indivíduo, ao dizer-se materialista, e assim, identificando-se com seu corpo físico, age dessa maneira, não é isso profundamente contraditório?

É curioso notar que a vontade da sensação e a emotividade, às vezes, desvia a vontade que quer concentrar a mente, como, por exemplo, quando queremos resolver um problema de matemática ou fixar a mente no trabalho que estamos tentando realizar e a emoção nos desvia, o pensar para questões afetivas, namorada, esposa, filhos etc., ou talvez ainda surja uma fome estranha justo nesse instante, e, então, a vontade do corpo começa a lutar contra a vontade que quer concentrar a mente.

Platão, no século IV a. C., já havia dividido a alma do homem em três partes eram, conforme encontramos em A República: a apetitiva (sede dos desejos de sensações e de ganhos), a arrogante ou irascível (sede da coragem e busca do poder e fama) e a inteligível (sede da razão ou compreensão e a busca da verdade). Se somarmos a isso a preguiça e busca de conflitos do corpo físico, já teremos uma noção intelectual da complexidade do homem e da grande possibilidade de conflitos e suas “vontades”.

Ainda mais antigo, o Katha Upanishad da tradição hindu nos diz: “Saiba que o ser é o passageiro e o corpo, a carruagem; que o intelecto é ococheiro e a mente, as rédeas”. “Os sentidos, diz o Sábio, são os cavalos, as estradas que percorrem são os labirintos do desejo”.

Nessa bela alegoria oriental podemos observar que, pelo menos, o cocheiro (o intelecto – veículo do pensamento concreto – alma arrogante) e os cavalos (os sentidos – “instrumentos” das sensações – alma apetitiva) são seres que têm vida própria, ou vontade própria, independente da vontade do passageiro (o Ser – o Eu Superior – a alma inteligível, causa do pensamento abstrato).

Pode-se tentar compreender essa idéia oriental de que o pensamento e a emoção ou sensação têm vontade ou vida própria se nos lembrarmos de que o cérebro, por onde eles transitam quando estamos em consciência de vigília, é constituído de células vivas chamadas neurônios cerebrais. Até a memória tem relação com regiões do cérebro. Logo, como já vimos, cada pensamento, emoção ou ação são um estímulo que produz certa impressão nos neurônios, gerando hábitos. Essas tendências ou hábitos assim gerados fazem com que os efeitos desses pensamentos, emoções e ações permaneçam conosco como impressões (chamadas de Samskaras pelos yogues orientais) por um tempo proporcional à intensidade e ao número de reincidências dos mesmos.

Em seu comentário sobre os Yoga-Sutras de Patanjali, o tratado milenar da Raja Yoga, o doutor I. K. Taimni nos diz “que o homem comum, vivendo no mundo, está sujeito ao longo de todo o dia a todos os tipos de impactos e ele reage a esses impactos de acordo com seus hábitos, preconceitos, educação ou humor do momento, de acordo com sua natureza, como nós costumamos dizer.

Essas reações envolvem, na maioria dos casos, maiores ou menores perturbações da mente, dificilmente existindo qualquer reação que não seja acompanhada por uma agitação dos sentimentos ou da mente. A perturbação de um impacto dificilmente teve tempo de cessar antes que outro impacto tire-a do equilíbrio novamente. Às vezes, a mente dá a impressão de estar aparentemente calma, mas essa calma é apenas superficial. Sob a superficie, há uma corrente submersa de perturbação, como o marulho num mar superficialmente calmo.

Essa condição da mente, que não precisa ser necessariamente desagradável e que é tomada como natural pela maioria das pessoas, não conduz, em absoluto à unidade de propósito e, enquanto ela dura, resulta necessariamente em Vikshepa: a forte tendência da mente de estar voltada para o exterior”.

É essa a razão porque parece difícil ao homem comum o autoconhecimento: a própria agitação de sua mente revolve o fundo, tornando impossível a percepção nítida das zonas mais profundas. Por isso, a Yoga busca, em primeiro lugar, serenar a mente, para que seja possível ao homem decantar as impurezas do fundo, tornando assim límpida a percepção, nas profundezas de si mesmo, da sua real natureza.

Nessa busca de serenar a mente, é indispensável a atenta observação. Pode-se descobrir que há emoções, ou estados mentais, que poderíamos classificar como pesados, em contraposição a outros mais leves que não aprisionam a nossa consciência. Tomemos como exemplo a depressão. Sabidamente ela é uma emoção pesada, porque, uma vez estabelecida, é de difícil remoção. Em quanto ela perdura, a consciência sente-se perturbada e aprisionada, porque a depressão é uma emoção que entra em dissonância com a nossa real natureza, impedindo que nosso Ser encontre possibilidade de expressar-se. Em contrapartida, quando sentimos a emoção leve da alegria, o nosso Ser consegue expressar pelo menos algo de sua natureza real e, por isso, a felicidade flui de dentro para fora sem obstáculo: a consciência sente-se livre.

Como vimos que as emoções e os pensamentos são decorrentes de hábitos, e como vimos que há estados pesados e leves, surge a idéia de transformar nossos hábitos emocionais e mentais. Essa arte de transformação dos estados psicológicos era conhecida entre os antigos como meditação e visava a libertação da consciência.

Uma das técnicas mais elementares de meditação é a da substituição. Está baseada no fato de que a mente só se ocupa com um pensamento de cada vez, de modo que a melhor maneira de se livrar de uma emoção pesada é substituí-la por uma leve. Um lama tibetano deu, certa vez, a seguinte instrução a seu discípulo:

“Nunca te permitas sentir triste ou deprimido. A depressão é má, porque contamina os outros e torna as suas vidas mais difíceis, o que não tens o direito de fazer. Portanto, sempre que ela vier a ti, rechaça-a imediatamente”.

“Deves ainda controlar o teu pensamento de outro modo: não deves deixá-lo vaguear. Fixa o teu pensamento no que quer que estejas fazendo, para que possa ser feito com perfeição, não deixes tua mente ociosa, mas mantém sempre nela bons pensamentos em reserva, prontos a avançar no momento em que ela estiver livre”. A linguagem simples da citação acima esconde uma série de leis que regem o mundo da mente; aconselhamos o leitor a descobri-las. Comentaremos algo sobre uma delas, que está relacionada com a expressão “rechaça-a imediatamente”. Se observarmos, poderemos descobrir que as emoções nutrem-se das imagens mentais: os pensamentos. Por isso, a maneira correta de adquirir autodomínio sem acumular repressões inconscientes é dirigir a energia do pensamento para estados leves, pois assim, por falta de nutrientes, os estados pesados gradualmente perderão sua força. Isso acontece automaticamente mesmo que não estejamos conscientes do processo.

A emoção, o querer, nutre-se do pensar de maneira semelhante ao fogo. Se deixarmos cair um palito de fósforo aceso num tapete é fácil apagá-lo: basta um rápido movimento do nosso pé e o fogo estará extinto. Entretanto, se, por desatenção ou ignorância, deixa-mos passar uns poucos instantes, perderemos rapidamente o domínio da situação e em menos de cinco minutos teremos um incêndio. Muitos morreram por terem dormido com um cigarro aceso.

De maneira muito semelhante, como dizemos, é a emoção nutrida pelo pensamento. É fácil controlar qualquer estado emocional em seus momentos iniciais; entretanto, costuma ser difícil libertar a consciência de emoções pesadas depois dos poucos minutos que elas necessitam para se fortalecer e se estabelecer. Há pessoas que se deixam envolver tanto nesses estados lamentáveis de ódio, tendências suicidas, etc., que perdem completamente o controle. Diz um provérbio chinês: “Um momento de paciência pode evitar um grande desastre; um momento de impaciência pode arruinar toda a vida”.

Afora o aspecto consciente da perturbação, existem os aspectos subconscientes. Diz-nos o Dr. I. K. Taimni: “Uma vez que uma perturbação tenha sido permitida, toma muito mais energia para ser superada completamente, e, mesmo que externamente ela possa desaparecer rapidamente, a perturbação interior subconsciente persiste por um longo tempo”.

Pode-se acrescentar que ela tentará retornar ao plano consciente para poder nutrir-se novamente. Por isso, se nós estivermos sempre a observar vigilantes os movimentos da mente, de momento a momento, pode-se adquirir de modo gradual um domínio de nossos estados psicológicos. Faz-se isso usando a dispersão usual do pensamento a nosso favor, substituindo-os prontamente sempre que necessário.

No caso da depressão, por exemplo, quando percebemos que pensamento está querendo trilhar os labirintos dos nossos problemas sem solução à vista, e que são os que usualmente nos deprimem, chamemos prontamente à nossa atenção os nossos “bons pensamentos em reserva”, substituindo, assim, os anteriores que nos conduziriam aos estados pesados. São técnicas elementares, se comparadas a outras mais avançadas, porém são eficazes e precisamos dominá-las antes de poder usar as outras comsegurança.

Outra técnica é a desidentificação ou plena atenção; esta, porém, costuma exigir uma mente já mais desperta e menos apegada às suas projeções. Para que o tema não fique muito abstrato, citaremos um exemplo que já utilizamos noutra ocasião:

“Suponhamos que nós estamos assistindo à televisão ou a um filme no cinema. O filme é real ou irreal? Supõe-se que pelo menos os adultos saibam que o filme é irreal, fictício. Mas mesmo assim sendo, pergunta-se: ele produz ou não produz emoção? Bem, somente quando nos sentimos envolvidos, identificados, não é verdade? Apesar disso, como é possível uma coisa ilusória produzir em nós um efeito tão real? Pois tal é o poder da identificação! Em verdade, todo sofrimento psicológico é fictício. Meditação é tomar consciência disso. O sofrimento físico, como ter um espinho no pé, é muito diferente, porque ele é objetivo. O espinho é objetivo; enquanto ele estiver lá, a dor não passará, mas se ele for retirado ela passará, cessada a causa, cessa o efeito. Mas o sofrimento psicológico é subjetivo. Quem cria e nutre o sofrimento psicológico? A própria mente, nada mais! Ele pode durar uma eternidade, porém ele nem mesmo precisa começar, se nós não o criarmos.”

“Todo depende apenas de quão identificados estamos. Pode-se então, notar quão intenso que é o poder da identificação? Da mesma forma, quando assistimos a um programa na televisão, tendemos a nos identificar com o personagem e a torcer por ele, de modo que aquilo que agrada ou desagrada ao personagem passa a agradar ou desagradar a nós, embora essas atrações e repulsões sejam essencialmente subjetivas. Dessa forma, nós podemos ser alegres ou tristes, rir ou chorar perante uma tela de televisão mesmo quando no fundo sabemos que o filme é fictício, ilusório e transitório. A qualquer momento em que o homem lembra que ele não é o personagem , nesse momento, ele está livre. Se ele perde novamente esse estado de consciência enredar-se na ilusão e voltar a sofrer é de sua escolha, mas pode ocorrer. Por isso a verdade precisa sempre ser reencontrada de momento a momento , mas também por isso ela se apresenta sempre nova, apesar de ser um reencontro… A liberdade existe toda vez que há essa ausência de apego ao eu ou à auto-imagem que criamos, aos nossos gostos e desgostos.”

Em verdade, as projeções da mente são como um pesadelo: só parecem ter realidade enquanto nós nos identificamos com elas. A técnica de substituição nos ensina que nunca devemos tentar lutar contra uma emoção, porque, ao preocuparmo-nos com ela, reforçamos o pensamento que a nutre, tornando-a ainda mais forte, mecanismo tipicamente repressivo que deve ser evitado. Antes de vermos aprender a “mudar o canal” de nossa “televisão mental” pensando noutra coisa, ou seja, em algum pensamento que nutra uma emoção leve, ou se possível, no pensamento ou ponto de vista oposto. Assim , sugere os Yoga-Sutras: “Quando a mente é perturbada por pensamentos impróprios, a constante ponderação sobre os opostos é o remédio”.

Já a técnica de desidentificação ou plena atenção é muito mais profunda e libertadora porque nos permite observar e compreender o movimento da mente e do desejo. Contudo, ela exige uma mente já mais trabalhada e desapegada de suas projeções porque se a pessoa, ao observar essas projeções ou imagens, mentais, fica identificada com suas emoções, isso poderá ser perigoso, à medida que a pessoa poderá vir a reforçá-las ao invés de desidentificar-se delas. Nesse caso, precisaremos voltar à técnica de substituição para evitar qualquer risco, porque a mente ainda não está suficientemente preparada para a desidentificação.

É extremamente perigoso manipular energias sutis visando despertar poderes psíquicos por meio de práticas de Yoga ainda mais avançadas sem antes ter adquirido o completo domínio de nossos estados psicológicos, que deveria ser adquirido pelo uso perseverante de técnicas simples, eficazes e seguras, caso contrário, a pessoa poderá enveredar-se pelo caminho da auto-ilusão, despertando prematuramente energias que darão mais força aos desequilíbrios já existentes, o que será triste, inclusive, para aqueles que a cercam. Quando a pessoa está pronta, preencheu os pré-requisitos, o caminho aparece; não antes. O caminho é do autoconhecimento, e ele começa pela observação atenta dos movimentos de nossa mente de momento a momento. Assim, pela prática da meditação, a mente principia a serenar. Então, começa-se a ver o valor real de cada ser ou coisa: nossas relações com o que nos cerca.

Enquanto buscamos nosso preenchimento exteriormente, deparamo-nos com as imagens desses seres ou coisas que nossos sentidos projetam em nossa mente e costumamos atribuir a eles valores ou expectativas de preenchimento segundo nossa ótica pessoal.

Quando atribuímos a algo um valor maior que o real, nós nos frustramos, desiludimo-nos cedo ou tarde, pois, alcançando esse ser ou objeto, terminamos por descobrir que seu verdadeiro valor era menor do que pensávamos. Essa desilusão será inevitável, uma vez que ele não poderá responder ao nosso apelo, segundo nossa expectativa, porque ela ultrapassa as suas possibilidades reais de resposta. Entretanto, poderemos perder muito tempo até alcançar o valor de nossa ilusão. Então, começaremos a buscar outro alvo, pois aquele nos desiludiu. Por outro lado, podemos nos sentir inexplicavelmente vazios sem saber por que, quando, na verdade, aquilo que poderia nos preencher está muito próximo, mas nós o subestimamos, dando-lhe valor inferior ao que realmente tem. Por isso nem sequer percebemos que longe procuramos o que perto está.

Eventualmente descobrimos que toda a felicidade vem de dentro, mas alguns seres ou objetos são mais aptos do que outros para refletir o nosso interior para nós mesmos. Esses serão, para nós, os mais valiosos. Todavia, enquanto não se descobrir o valor real de cada ente que nos cerca, não poderá haver verdadeira harmonia e, por conseguinte, haverá contradição e conflito. Só quando o indivíduo consegue refletir sobre si o seu próprio Ser, conhecendo sua real natureza, é que ele consegue atribuir o valor correto. Então cessa a contradição, a harmonia se estabelece e descobre-se que a luz da felicidade nunca veio do exterior, mas sempre do interior, toda vez que nossas nuvens de desejos não a obscureceram, e que ali, ela permanece inabalável.

Na tentativa de fornecer uma visão intelectual, e, portanto limitada, dessa perspectiva correta e respeito daquilo que nos rodeia, foram elaborados os capítulos desta obra.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Fazer 30 anos


Percebi algo esses dias: quando chegamos aos 30 anos, nos damos conta de que é um momento de reavaliar, repensar e perceber o que realmente queremos.Fazer 30 anos é um rito, é um processo de auto-conhecimento único onde não temos mais as questões que nos chegam durante a adolescência nem as angústias de quando entramos na vida adulta.Ou seja, fazer 30 anos é perceber o quanto somos responsáveis pelas nossas escolhas- nessa fase tudo entra em questionamento: trabalho, formação, namoro, casamento, relações interpessoais, enfim, "o que estou vivendo realmente é o certo para mim?"
Finalizando, fazer 30 anos é embarcar numa viagem de volta a si para assim escolher se queremos permanecer no mesmo caminho ou mudar o percurso, ou então, permanecer no mesmo caminho mas com passadas diferenciadas que nos levam a perceber que cada dia é único e que vale à pena ser vivido.

Eu....

domingo, 21 de fevereiro de 2010

A Busca pelo Nosso 'Bem'!




Vasculhando nosso passado percebemos que tudo aquilo que num determinado espaço-tempo da manifestação de nossa existência não perturbou nossa mente nem nos fez perder o equilíbrio foi aquilo que julgamos bom para nós. Mas sempre que não conseguimos o que desejamos, ou perdemos o que conquistamos… Sempre que não temos total controle de uma situação nos sentimos insatisfeitos, pois podemos não obter ou até mesmo perder aquilo conquistado!

E seguimos em nossa busca pelo nosso Bem [1]. Desejamos existir, desejamos conhecer, desejamos bem-estar e é isso que nos dá o poder de realizar. Há um tempo em que desejamos apenas sensações de prazer físico e há um tempo em que desejamos apenas posses materiais, e quanto mais os temos mais queremos, pois quando os obtemos os notamos insuficientes em nos preencher. Descobrimos um vazio em nós mesmos e achamos que poderemos o preencher com coisas que passamos a chamar de “minhas”.

Insuficientes que são, passamos a procurar por fama, poder e sucesso, mas com o tempo os notamos também insuficientes em nos preencher o vazio. Paulatinamente o desejo de ser admirado e servido se converte em vontade de servir e começa a surgir o desejo apenas pelo cumprimento do próprio dever. É o início da verdadeira religiosidade!

Passamos a servir incondicionalmente, mas até isso passa a nos ser insuficiente, pois não consegue preencher aquele vazio íntimo que parece sem fim… Necessitaríamos de um infinito de coisas para preenchê-lo. O Infinito… é isso que passamos a procurar. Passamos todo o tempo tentando nos preencher de coisas que não tinham o real poder de nos preencher. Foram ilusões e que bom foi nos desiludirmos! Perceber que não eram reais… Tudo o que antes víamos como desejos legítimos passamos a notá-los ilegítimos. Passamos a procurar nos libertar deles. Liberdade… é o que passamos a desejar.

Estive ocupado com o urgente que não era importante

Estive ocupado com o importante que não era urgente…

E deixei de lado o que era essencial…

Sobrou-me apenas esse Vazio

E um irresistível desejo de Liberdade…

[1] Segundo o Vedānta, existem quatro objetivos e/ou valores da vida humana:

Arthaḥ – dinheiro, riqueza; propriedade, bens; fortuna; abundância; objeto dos sentidos, objeto estimado. Bem estar econômico e sucesso no mundo.

Kāmaḥ – desejo pelos objetos que estimulam os sentidos. Satisfação de desejos legítimos.

Dharmaḥ – desejo pela virtude, mérito; dever, justiça, lei natural, religião, ordem estabelecida, costume, instituição, obrigação individual ou coletiva (física, moral ou espiritual); a perfeição ética e moral.

Mokṣa – emancipação do espírito das ilusões da existência; liberação, salvação, libertação – auto-conhecimento.

Autor: Claudio Azevedo( http://www.orion.med.br/portal/index.php )